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O Instinto Implacável de Stallone: Da Fuga Tática à Fúria de Rambo em 4K

Antes de se embrenhar nas selvas húmidas do Vietname e redefinir o cinema de ação, Sylvester Stallone já andava a magicar fugas em cenários de guerra. Basta recuar até 1981, altura em que o realizador John Huston reuniu um elenco no mínimo improvável para o drama Evasão para a Vitória (Escape to Victory). Ao lado de pesos pesados como Michael Caine, Max von Sydow e o nosso eterno Pelé, Stallone dá corpo a um prisioneiro de guerra envolvido numa premissa insólita durante a Segunda Guerra Mundial: um grupo de oficiais nazis decide organizar uma partida de futebol contra a equipa formada pelos aliados capturados. A malta prisioneira, obviamente, alinha na ideia, mas usa os noventa minutos na relva como manobra de diversão para orquestrar uma fuga do campo de concentração. Com banda sonora de Bill Conti, são 110 minutos de tensão que ajudaram a cimentar a figura de Stallone como o sobrevivente definitivo.

Curiosamente, é através da música de Bill Conti e da temática dos prisioneiros de guerra que damos o salto para o legado mais marcante do ator. Aterra-me agora nas mãos a novíssima coleção Rambo em 4K lançada pela Lionsgate. Meus caros, se são fãs da pancadaria clássica, esta é indiscutivelmente a edição definitiva para ter na prateleira, a melhor desde a velhinha caixa em steelbook. O Digipack robusto de seis discos, que inclui os códigos digitais, foi desenhado para encher as medidas e não desilude em nada.

Para os mais esquecidos, a saga transformou-se num dos franchises mais icónicos do cinema ao acompanhar um ex-Boina Verde assombrado pelas memórias do Vietname. Ao longo de quatro décadas, esta máquina de combate desmantelou o preconceito de uma terriola americana, libertou prisioneiros de guerra, resgatou o seu comandante das garras soviéticas e salvou missionários em Myanmar. A sua última incursão de vingança atira-o para o México, numa missão de resgate da neta de um velho amigo. Tinha os filmes bem frescos na memória, mas esta era a desculpa esfarrapada ideal para os rever e perceber que tipo de milagre a transferência para 4K conseguiria operar. O resultado é estrondoso. Tirando uns três momentos pontuais onde o grão se nota em filmagens de exterior, a qualidade de imagem é soberba — e o detalhe das infindáveis explosões incendiárias é qualquer coisa de espetacular. O som, como seria de esperar, está imaculado.

Mas o grande prato forte desta viagem nostálgica será sempre A Fúria do Herói (First Blood), a faísca que incendiou a saga e que até andou a cheirar as nomeações para os Óscares. O projeto passou por um autêntico inferno de desenvolvimento até Hollywood achar que a poeira do Vietname já tinha assentado o suficiente para o público americano não espumar de raiva com uma guerra inútil (lá está, a história teima sempre em repetir-se). O argumento foi parar às mãos de Stallone numa segunda-feira. Na terça, já ele estava a confirmar ao realizador Ted Kotcheff que entrava no barco, impondo apenas a condição de poder reescrever o guião para afinar a densidade da personagem. O romance de David Morrell, que muitos julgavam inadaptável, estava de novo em cima da mesa.

A narrativa arranca com o jovem veterano John Rambo a tentar visitar um camarada de armas, apenas para descobrir que este morreu no verão anterior com cancro, cortesia da exposição ao Agente Laranja. Desolado, Rambo desce até à cidade à procura de um tasco para comer qualquer coisa. É logo topado pelo xerife sacana da terra, interpretado por um Brian Dennehy insuportavelmente arrogante. Este é o típico gajo que atingiu o seu auge de glória no liceu e agora descarrega as frustrações em quem for diferente. Aparentemente, ter cabelo comprido e não acatar as ordens de um idiota com um distintivo para sair da cidade é motivo mais do que suficiente para desancar um veterano e atirá-lo para uma cela.

É precisamente esta brutalidade gratuita que desperta o stress pós-traumático no até então calado e taciturno Rambo, que tinha visto e vivido o impensável na selva. O que se segue é um sangrento braço de ferro com as forças da lei locais, onde pelo meio encontramos um jovem David Caruso, que parece ser o único polícia que realmente percebe o buraco em que se meteram: acabaram de enfurecer um herói de guerra condecorado com a Medalha de Honra do Congresso.

O filme foi um autêntico estrondo de bilheteira, mas a coisa podia ter dado para o torto se Kotcheff não tivesse tido a decência de rodar um final alternativo às escondidas. Os produtores batiam o pé para que Rambo morresse no final, forçando o seu mentor, o Coronel Trautman (Richard Crenna), a disparar sobre ele. Numa das entrevistas exclusivas desta edição, o realizador conta como o público nos visionamentos de teste em Las Vegas quase destruiu a sala com esse desfecho. A salvação do filme — e o que garantiu a existência das sequelas e uma valente pipa de massa para o estúdio — foi mesmo essa carta na manga onde Rambo sobrevive.

Costuma dizer-se à boca cheia que este foi o primeiro filme a retratar os veteranos e o trauma de guerra de forma empática. No entanto, o debate é longo. Dá para argumentar que a fita de terror Deathdream (ou Dead of Night) de Bob Clark, lançada em 1974 em plenos estertores da verdadeira Guerra do Vietname, foi a verdadeira pioneira a tocar na ferida. Pode ser uma obra demasiado obscura e aterradora, mas transborda simpatia por um soldado que regressa a casa depois de ser dado como morto pela família, deixando claro que foram as atrocidades do recrutamento que o transformaram num monstro. Seja de quem for o mérito do pioneirismo, a realidade é que foi o olhar perdido e ensanguentado de Stallone que ficou cravado na memória de todos nós.