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A Era da Perplexidade: Entre a Sátira Política Nacional e o Surrealismo Televisivo

Vivemos tempos em que a fronteira entre a realidade política e a ficção surrealista se torna cada vez mais ténue. Se, por um lado, a análise da atualidade nacional nos deixa muitas vezes a coçar a cabeça, por outro, as novas tendências da televisão internacional parecem apostar deliberadamente na confusão do espectador. Uma viagem recente pelos arquivos do comentário político português e pelas estreias globais de televisão revela um fio condutor inesperado: a perplexidade como o novo normal.

O Espelho da “Geringonça” Semântica

Em Portugal, ninguém captura melhor o espírito caótico da política nacional do que o quarteto residente do Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer. Ao analisarmos o arquivo recente das emissões, entre o final de 2025 e o início de 2026, deparamo-nos com uma galeria de “ministérios” fictícios que, na verdade, dizem tudo sobre o estado da nação.

Carlos Vaz Marques, Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia e João Miguel Tavares têm desenhado um mapa político onde impera o insólito. Tivemos de tudo: desde o “Ministro da canhoneira” e o “Ministro da ordinarice”, até figuras mais enigmáticas como o “Ministro do D” ou o “Gigaministro das gigafábricas”. A sátira aponta para uma governação marcada por “manobras dilatórias” e “queixinhas”, onde a dignidade profissional parece por vezes refém da “pequena política”.

A celebração dos 25 anos da SIC Notícias serviu também de pretexto para revisitar “gaffes” e momentos históricos, lembrando-nos que o inusitado não é uma novidade, mas uma tradição. Contudo, a entrada em 2026 trouxe novos desejos e palpites, ainda que ensombrados pela figura do “Ministro da treta” e do “Ministro das Desventuras”. É uma narrativa de avanços e recuos, ou, como ironicamente foi batizado num dos episódios, uma “evolução na continuidade”.

Quando o Guião Nos Deixa “À Nora”

Curiosamente, se mudarmos o canal da política de São Bento para o entretenimento internacional, a sensação de desorientação mantém-se. Um grupo de críticos do The Guardian debruçou-se recentemente sobre um fenómeno televisivo crescente: séries que nos deixam absolutamente perplexos, mas que somos incapazes de deixar de ver.

O exemplo mais flagrante é The Chair Company, de Tim Robinson. Tentar explicar o enredo é um exercício de futilidade. Em teoria, trata-se de um homem envolvido numa conspiração após uma cadeira se partir; na prática, é um mergulho num absurdo “Lynchiano”. O espectador é confrontado com perguntas sem resposta: porque é que há um vampiro que atrai pessoas inventando uma nova forma geométrica? Porque é que o antagonista tem cabeça de bebé? A série não oferece explicações, preferindo chapinhar na sua própria estranheza, desafiando qualquer lógica narrativa convencional.

O Jargão e o Sobrenatural

Noutros casos, a confusão não advém do surrealismo, mas da exclusividade da linguagem. A série Industry tornou-se um vício para muitos que, paradoxalmente, não fazem a mínima ideia do que as personagens estão a dizer. O drama financeiro está repleto de um jargão impenetrável — o chamado “technobabble” — onde termos como “DV01” são lançados como armas.

Mesmo os criadores admitem que parte do diálogo é algaravia financeira, mas o público mantém-se fiel, decifrando as cenas não pelo que é dito, mas pela “vibe” da sala: celebração, pânico ou desastre iminente. É a prova de que não precisamos de entender os detalhes técnicos para ficarmos viciados no drama humano de sexo, drogas e ambição desmedida.

E, claro, não se pode falar de televisão desconcertante sem mencionar o “pai” de todos estes formatos: Twin Peaks. Se as primeiras temporadas nos anos 90 já desafiavam as convenções, o regresso da série em meados da década de 2010 elevou a fasquia do incompreensível, com David Bowie reencarnado numa chaleira gigante.

Seja através da análise mordaz dos nossos “ministros do quintal” e “da esquerdalhada”, ou através de séries onde a lógica vai morrer, a conclusão é transversal: o público moderno parece ter desenvolvido um gosto peculiar pelo que não consegue explicar totalmente. Quer seja no parlamento ou no streaming, estamos todos, coletivamente, a tentar perceber o que acabámos de ver.