O cinema e a magia partilham uma genética peculiar, alimentando-se ambos da nossa eterna vontade de sermos enganados. Pensem no clássico jogo do gato e do rato levado ao extremo por grupos como “Os Quatro Cavaleiros”. A premissa é conhecida: quatro dos maiores ilusionistas norte-americanos montam um espetáculo nunca antes visto, transformando-se numa dor de cabeça para uma equipa de elite do FBI. Ao executarem golpes de uma audácia tremenda contra magnatas corruptos do mundo corporativo, estes mágicos não se limitam a roubar; eles orquestram uma catarse, fazendo chover os lucros ilícitos sobre uma plateia em êxtase. Mantêm-se sempre um passo à frente da lei, claro, porque a verdadeira magia ali é o controlo absoluto sobre a narrativa e a atenção de quem vê. O foco está no palco, na pirotecnia da ilusão. Mas o que acontece quando alguém na plateia decide ignorar o truque e começar a estudar os rostos de quem está a ser enganado?
É precisamente esta mudança de perspetiva que dita o compasso de um tipo de magia bem mais intimista, mas com um impacto devastador. Abandonamos as luzes de Las Vegas e entramos no escurinho de uma sala de cinema comum, o cenário central de Credits Roll Into the Sea (no original, Umi ga Hashiru Endroll). A Kyoto Animation acabou de oficializar a adaptação deste mangá a um filme anime, com estreia marcada para 2027. O projeto, com realização de Taichi Ishidate — que já nos deixou de queixo caído com obras como Violet Evergarden e Beyond the Boundary — foca-se em Umiko, uma mulher de 65 anos a braços com o luto pela perda recente do marido. Após décadas sem pôr os pés num cinema, ela ganha coragem e compra um bilhete. É nessa sessão que a sua vida se cruza com a de Kai, um estudante universitário de cinema, e onde se dá a verdadeira epifania. Umiko não olha para o ecrã; o seu fascínio volta-se inteiramente para as reações das pessoas à sua volta. Ela disseca o público da mesma forma que um ilusionista estuda as suas marcas.
O miúdo topa logo a coisa. Após o filme, Umiko convida Kai para ir a sua casa e, no meio da conversa, ele atira-lhe a constatação que muda tudo: “Tu és daquelas pessoas que quer fazer filmes, não és?”. O clique é imediato. Aos 65 anos, ela ganha consciência de uma pulsão criativa que estava adormecida e atira-se de cabeça ao mundo da realização cinematográfica. O salto da passividade da plateia para a cadeira do realizador é a premissa brilhante que John Tarachine começou a publicar na revista Mystery Bonita da Akita Shoten em outubro de 2020. Agora, com a produção a cargo do comité do próprio filme e a distribuição dividida entre a Shochiku, no mercado interno, e a ABC Animation além-fronteiras, a transição para a tela grande parece o destino natural de uma obra que respira metacinema.
E a indústria não lhe passou ao lado. O mangá é um autêntico fenómeno editorial, cimentado por um primeiro lugar estrondoso no guia Kono Manga ga Sugoi! de 2022 (na categoria para leitoras), mantendo-se no top 6 no ano seguinte. Somam-se ainda o nono lugar nos prémios Manga Taisho e duas nomeações de peso para o Prémio Cultural Osamu Tezuka, em 2023 e 2025. O burburinho é totalmente justificado, até porque o primeiro capítulo incendiou o X com mais de 258 mil likes num ápice. Não é a primeira vez que Tarachine mostra serviço; a sua obra anterior, A Bruxa do Castelo de Cardo (Azami no Shiro no Majo), editada pela Coamix e posteriormente pela Titan Comics em inglês, já antevia este talento para construir narrativas que fogem da norma.
Com o nono e derradeiro volume da história de Umiko a chegar às bancas japonesas a 15 de maio — fechando um arco que viu o oitavo volume publicado no verão passado —, o público ocidental também não vai ficar de fora. A Dark Horse já garantiu a licença e lança o primeiro volume traduzido a 7 de julho. No fundo, quer estejamos perante ilusionistas arrogantes a desafiar as autoridades para gáudio das massas, ou perante uma viúva sexagenária que descobre o poder de manipular emoções através de uma câmara, a mecânica da ilusão permanece intacta. Em ambos os casos, a arte reside em dominar o espetáculo e perceber, de uma vez por todas, que quem controla a atenção da plateia, controla a própria realidade.




